Menos jornalismo, mais informação
Com a popularização da Internet, todo mundo está convidado a ser jornalista
Daniel Agrela e Mariane Pinho *
Embora muita gente não aceite, o jornalismo – tal qual conhecemos – está morrendo. De fato, para quem sempre viveu a adrenalina de um fechamento de jornal fica difícil acreditar que a figura romântica do repórter, o nobre intermediário da notícia, esteja próxima do fim. Com a popularização da Internet, todo mundo está convidado a ser jornalista. As pessoas não precisam mais de alguém para selecionar suas notícias.
Negar essa realidade é sempre a primeira reação. É natural. Mas não há como refutar que o crescimento do meio online e a importância exercida atualmente pelas redes sociais trouxeram mais agilidade às informações e, é claro, atingiram em cheio as empresas de mídia, especialmente jornais e revistas. Nem mesmo os cortes de pessoal, intensificados ao longo da última década para amenizar essa inevitável crise, possibilitaram a recuperação dos veículos impressos, que perdem leitores a cada dia.
Para fugir dessa tendência e abocanhar novos assinantes, os maiores impressos de São Paulo prepararam recentemente uma série de propagandas no horário nobre da TV. A Folha convocou os principais jornalistas da casa para participar de sua propaganda. Já o Estadão faz a seguinte pergunta: “quanto vale o seu conhecimento?”, dando ao leitor a opção de pagar o quanto quiser pela assinatura no primeiro mês. Ambos os periódicos tentam valorizar seus produtos, oferecendo conteúdo exclusivo, analítico e mais aprofundado.
Na verdade, os jornais sempre sofreram com a falta de instantaneidade das informações, prerrogativa do rádio, da TV e, mais recentemente, da internet – que vem tomando o espaço não só da mídia impressa, mas de todos os meios de comunicação tradicionais.
Enquanto os jornais investem em matérias analíticas, as revistas nas investigativas e a televisão no poder da imagem, a internet faz de tudo: podcast, vídeo e texto informativo e reflexivo. Ela cresce 21% ao ano, enquanto a taxa de crescimento dos outros meios se estabiliza ou cai. Cada vez mais, a Web se consolida como o centro do conhecimento descentralizado, um espaço da conversa multidirecional em que todos falam de tudo.
Talvez por isso a figura do jornalista como intermediário entre a informação e o público esteja em declínio. A força exercida pelas redes sociais como blogs, Orkut, LinkedIn, Facebook e Twitter já pôde ser percebida em diversos acontecimentos, como os relatos enviados por cidadãos iranianos no auge dos últimos conflitos, em um país com sérias restrições à cobertura jornalística tradicional. Isso prova que para uma notícia vir à tona não é preciso que haja um jornalista in loco para relatar os fatos. Eles podem vir diretamente da fonte, por meio de um blog, por exemplo.
O fato é que o jornalismo passa por um momento de transição, em que os veículos tentam se adequar à nova realidade digital. A internet caminha para abranger todas as áreas das nossas vidas e isso inclui a forma com que informamos e somos informados. É por isso que o futuro do jornalismo está na conversa. A notícia não estará mais nas mãos apenas dos jornalistas: ela está nas redes sociais, onde todos podem informar e debater. Quem estiver fora dessa discussão, também vai morrer. Precisamos nos adaptar.
* Daniel Agrela e Mariane Pinho são jornalistas e atuam como PR Digital na Cia da Informação.
Jornalista – um bicho de sete cabeças e dez chifres
Por Débora Carvalho
Uma cabeça só não seria suficiente para o jornalista contemporâneo ser capaz de acompanhar as atuais exigências da profissão. Antigamente, as demandas eram distintas, segmentadas em áreas exclusivas. Alguém só para analisar e propor pautas. Outra pessoa só para apurar informações. O repórter nas ruas. O redator que escrevia com base nas informações do repórter e do apurador. O cara da diagramação. Revisor. Fotógrafo. Câmera. Editor de áudio. Editor de vídeo. Motorista. Operador de som. Locutor.
Hoje é diferente. O jornalista tem que saber o que aconteceu, o que acontece e o que vai acontecer ao seu redor e no mundo. Escrever em cinco linguagens diferentes: jornal impresso, revista, internet, rádio e televisão, com maestria. Texto impecável. Criatividade. Domínio das tecnologias para fazer o máximo de coisas sozinho.
Não existe mais pauteiro. Nem apurador. O repórter tem que entregar o texto final, impecável. Existe até vídeorepórter, que faz a matéria sozinho – com passagem e tudo – e edita o VT no notebook, no estacionamento do shopping onde parou para fazer um lanche – para chegar à redação com a matéria pronta para ir ao ar.
Além das exigências de múltiplas performances e habilidades, a estabilidade em carteira assinada também está em extinção. Vivemos em um novo mundo, onde o jornalista – além de multiuso – também precisa ser empreendedor.
Nesse cenário apocalíptico, o jornalista é um bicho de sete cabeças e dez chifres. Uma cabeça só não dá conta de tantas exigências. Quais você imagina que são? Minha sugestão é cultura, agilidade, proatividade, sensibilidade, tecnologia, empreendedorismo e humanidade.
1. Cultura
Além da popular, a erudita. História, atualidades, arte e costumes. Isso inclui conhecer bem o próprio idioma: estar entre os 28% da população com alfabetização plena. E mais. Na condição de comunicador, precisa ser capaz de falar com os 72% que não compreende bem o que lê. Nada de conversar com o próprio umbigo ou só com a elite e colegas de profissão.
2. Agilidade
Tudo é pra ontem nesse novo mundo. Vivemos na cultura do imediatismo. Então, é bom que os hábitos de vida do jornalista permitam que ele tenha um raciocínio muito veloz. Tem que digitar rápido, diagramar mais rápido ainda. Editar sem erros. Ir direto ao ponto. Não dá pra enrolar tempo na atividade e menos ainda enrolar o público com blá blá blá. O texto também precisa ter essas características, ser claro, objetivo, e de fácil leitura. Parágrafo que a gente precisa ler duas, três vezes para entender, só em artigos acadêmicos. Quando essa cabeça pega no sono a matéria não sai.
3. Proatividade
Degolar essa cabeça por achar que o beneficiado é sempre o próximo é a pior bobagem. Ser proativo, cheio de iniciativas e de bondade – com foco nos resultados e no bem-estar das pessoas – é a chave para aquela promoção. Ou demissão. O incrível é que ser demitido por um chefe incompetente e invejoso abre as portas para que você encontre seu espaço legítimo. É um favor que você recebe da vida, pois talvez não tenha coragem para pedir demissão.
4. Sensibilidade
Quando a sensibilidade fica com dor-de-cabeça é o fim. Pausa para férias. Sem sensibilidade, você fica com a percepção alterada. O texto fica péssimo, sem criatividade e sem nexo. Você não vai saber quando e com quem ser proativo. Vai deixar de fazer a pergunta mais importante. Talvez até publique uma barrigada sem apurar os dados – por falta de atenção. Não vai perceber as alfinetadas ou que está sendo capacho do colega, ou que você mesmo está agindo com grosseria ou arrogância. Sensibilidade é questão de sobrevivência.
5. Tecnologia
Conteúdo não é nada se ninguém tiver acesso. A tecnologia permite que os conteúdos cheguem às pessoas. O jornalista contemporâneo domina todas as novas tecnologias à medida que vão surgindo, e as aplica para facilitar a produção do seu trabalho.
6. Empreendedorismo
Pois é. Hoje, o jornalista sem espírito empreendedor, ou coragem para empreender, perde muito. O patronato não tem espaço para empregar todo mundo. E ainda existe a relação entre os empreendedores de grande porte com os empreendedores micro – uma empresa composta de eu e minhas sete cabeças. O jornalista empreendedor não tem rabo preso. E precisa aprender marketing e publicidade – para aplicar em si mesmo. É uma aventura que pode valer a pena para os que têm coragem.
7. Humanidade
Se ela tiver um AVC, você pode esquecer que seu compromisso profissional é com o público e não com o seu chefe. A sétima cabeça é a primeira que nasceu. Do tempo em que não existia tecnologia nem multifunções. É aquela que mostra que você não é super-homem, nem advogado, policial ou juiz. Ela é a ética, o caráter. É a verdade e o respeito acima de tudo. É o que te dá coragem de abandonar o emprego que paga mal e demitir o chefe sem escrúpulos. É a sua dignidade – que não tem preço. Ou tem?
É por esse trabalho todo que o jornalista é um bicho de sete cabeças.
E os dez chifres?
– Cada um com seus problemas. Mas tomara que você tenha nenhum.